sábado, 23 de fevereiro de 2013

E se a vida só me der um olho roxo?

Eu sou uma bomba relógio com o cronômetro perto do fim. Sou uma bomba relógio que começa no dez e cai rápido demais. Deve haver algum fio solto.
Sou um caderno despejando confusão deitado no divã de um psicólogo qualquer. Vez ou outra tropeço em sentimento novo.
Minha dança suicida se tornou flerte prejudicial. Como sair desse tango quando me parece ser o mais conveniente? É um compasso muito fácil de aprender, basta seguir o que a lâmina propor.
Sem alarde, sem desespero. Sangue vermelho quente é o que mais gosto de usar. Pingando pelos cômodos da casa, direi adeus quando o último acorde tocar.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Esqueça de lembrar

Sinto a angústia permear minhas veias que saltam na pele tentando escapar. Urram de agonia buscando um meio pro fim.
Sei da discordância de teus olhos claros borrados. Uma aquarela de duas cores: verde e preto. De que adianta remoer um fardo tão grande? Deixa pra lá que o vento varre pra debaixo do tapete.
Em pequenas linhas escrevo a mais extensa nota de rodapé: ela não vai voltar. Repouse a desordem de teu peito, lave o rosto e enxugue o coração. Você merece mais que promessas.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Depois do vasto campo de girassóis

Primeiro veio a luz, e um monte de lamparinas acesas. Podia ser um daqueles bang-bang de faroeste, mas na vila nem havia xerife. Sentado à beira da estrada, vi um velho maltrapilho com chapéu de palha, mascando fumo e rindo pra senhora na cadeira de balanço. Eles observavam vidas. Era uma dessas cidades pequenas em que todos se conheciam, do íntimo ao fútil, ninguém escapava. 
Não tinha eletrecidade nem contato com a civilização. Quando a noite chegava dava pra sentir a cera da vela queimar. Famílias se reuniam pro jantar e de sobremesa ouviam histórias de seus avôs e avós. Histórias que serão contadas pelos filhos deles, e pelos filhos dos filhos, até o último respiro de gerações. Nosso legado é o que a gente conta.
Dava pra ouvir o piar dos pássaros sem interferência de maquinarias e motores automobilísticos. Um verdadeiro sopro de sossêgo. As estrelas cobriam o céu inteiro, o ar era limpo e cheirava campo. A única fumaça do lugar brotava das fogueiras.
Não vou contar onde fica a cidadezinha do leste por medo que talvez você conte a outro alguém. Seria uma pena ver tal calmaria ser tomada pela ganância do homem branco moderno. Você só precisa saber que eu estive lá, em meu mais lúcido sonho de minhas quase duas décadas.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

João ninguém

Vivo no inferno e a temporada é de chuva, parece até piada do tempo. O dia amanhece escuro e traz neblina pros pulmões. Não faz brilhar o sol, as nuvens se tornaram a atração principal do céu.
Sinto saudade do circo, fazer parte do espetáculo. Mesmo sendo palhaço triste, do alto do trampolim observava a multidão numerada com o riso pronto pra escapar. De maquiagem borrada eu fazia graça e deixava o desespero berrar, rasgando os ouvidos de quem fosse capaz de entender. Assim fui minando cicatrizes literais de um corpo que não me pertencia. Ainda não sei o que fazer com as mãos, acho que nasci do avesso.
Vou me jogar na arena, sobreviver ao picadeiro. Quero ser necessário e fingir voar do precipício. Assim, alado, sem coordenar o vento. 
Ou me afunda de vez ou me joga na cama elástica, meu bem.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Deixa o domingo se perder

Levando noite inteira a dentro, tua vida terá gosto de cerveja quente. No teu cinzeiro, o que sobrou? Vão tentar te apagar, seja forte. Faça com que as cinzas se espalhem na sala de visitas, assim tuas memórias não viverão só em mim.
Acorda e vai buscar na geladeira o café da manhã: metade da maçã que escolheu ontem a tarde. Chinelos trocados e cabelo bagunçado, roupa do avesso e olhos pregados. Esqueceu que acordando tão cedo assim vai ter de fazer o almoço. 
Onde dá pra medir a felicidade? Achei que dava conta de contar teus sorrisos, porém a mágoa roubou a gargalhada das gargantas e não sei se o canto da tua boca conta como alegria ou se é disfarce pra enganar a solidão nos dias ruins.
Toma cuidado com esse mar escondido na tua pupila, tá transbordando, não deixe secar. Tome esse remédio que o médico me receitou. Acho que é pra ser feliz.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Os olhos verdes das noites de verão

Dentro desse tempo morno carícias são difíceis de sentir. O pêlo do braço não arrepia mais, o suor na testa desfila pelas rugas do rosto. Teu sobrenome não casou com o meu, não rima. Foi feito na forma de outro cartório, pra outra certidão.
Se você vier, chegue cedo. Sem dor, com a palidez da cor e sem contas pra pagar. Traga abrigo pros olhos secos, trague um cigarro e me jogue pra longe. Seja encruzilhada, desate os nós feitos de nós. Erga a cabeça e me faça mansa, me faça acreditar na sua tempestade de otimismo. Tire as amarras que te cercam, leia mais pro teu cérebro não parar. Não se deixe enganar, é fácil se perder em falsas crenças e promessas de pacote fechado.
Mas se te levanta o ego, me ajoelharei no milho pra pagar penitência. Se te fará correr, gritarei tuas migalhas aos quatro ventos. Serão quantos corpos até tua boca encontrar o meu?
É sagrada minha angústia pelas curvas do quarto esperando de luzes apagadas a contagem regressiva. Você vem ou não?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Descendo a escadaria do morro

Olhei pro lado e a vi chorando de rir. De imediato não entendi por que havia tanta alegria contida nas lágrimas que vinham do sol. Daí então foi que eu percebi: não era sonho, a terra apenas tinha esquecido de girar. Caminhava lenta como dia de domingo.
Perguntei o motivo de tanta graça e ela respondeu: "São os labirintos dos poetas o meu maior objetivo. Você não vê? Meu romance ainda há de se escrever." 
Os lábios pequenos da menina de agasalho amarelo se abriam e fechavam sem fazer sentido, ainda assim, cismei em compreender. Disse: "Quem te escreverá? Além da cor de tuas vestes, sua insignificante existência nada tem a contar." A pequena criatura de mar nos olhos, sorriu: "Tu me escreverá por vários contos na cabeça antes de me tornar livro. Tu irá me procurar por entre casas e flores, com violão e vinil do Cazuza. Tu que me despreza, tu que já me amou." 
Nunca antes meu caminho cruzou o dela, mas a nudez de sua voz me fez tremer. Com o polegar direito me acariciou o rosto, saiu descalça, dançando na ponta dos pés. "Não quero sujar o calcanhar" gritou.