terça-feira, 25 de março de 2014

Desalento

Meu coração dói e tenta rasgar o peito, não consigo respirar. O que tenho é físico e real. Isso não é poesia, é o meu epitáfio.
Há um barulho melódico atravessando a rua e emudecendo meus pensamentos. Não os ouço há muito tempo, tua ausência ocupa grande espaço em minha mente. Tua tristeza pesa demais e eu perdi a capacidade de me entender. Sinto ter esgotado cada gota do que poderia expressar.
Anoto o que sou capaz de ouvir: conversas emprestadas em mesas vizinhas, amores emprestados de corações amargurados que encontro nas esquinas.
Nada disso aqui é meu, nem mesmo o nome. Me tornei poeira dos corpos que desejei.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Autorretrato

A cigarra canta e eu na varanda continuo a fumar. Deslocada, testemunho o vento quebrar na parede e ecoar pelos canos. Os olhos dela permanecem vidrados no celular. Não a culpo, estou trancada no meu próprio mundo. Imersa numa teia de egocentrismo que me impede a aproximação. Já não sei falar sobre o amor, nem sobre qualquer outro assunto. Me sobra tempo, me falta vida. Na verdade o que falta é vontade de viver. Me usam como artefato de espanto, sou assustadoramente vazia. Costumo aparentar apatia, descaso com o sentimento alheio. Sou inofensiva, apesar de tudo. Idealizo pessoas, seus defeitos, conversas e até mesmo decepções. É um exercício rotineiro. Observo e analiso comportamentos. Não pra me sentir superior (me falta autoestima pra isso), o faço pra tentar entender um pouco mais a respeito dos que me cercam e a mim. Fujo de interações sociais, prefiro ser espectadora ou mera vírgula em histórias diversas. Meu único trunfo é escrever. Escrevo porque gosto, não por obrigação. Não espero que alguém leia e se identifique com isso. Escrevo porque foi essa a maneira que encontrei pra esvaziar. E é sempre bom desabar num caderno amigo.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Let me forget about today until tomorrow

Vesti meu melhor sorriso pra te encontrar na madrugada. Na quietude dos passos vagarosos e tamborilar dos dedos febris. Você só me deixou o silêncio e isso me apavora.
Deixei a luz acesa pra brincar com as sombras na parede. Dancei como fumaça que sai da boca e voa leve pra todos os cantos. Fechei os olhos, perdi o medo de ficar presa na minha cabeça. Chamei teu nome, bebi um pouco de vinho. Mais um gole. Um pouquinho mais. Fiquei bêbada e acendi um cigarro.
Deitei no chão e percebi que o céu só é bonito quando você está nos meus braços. 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

We'll be nothing but dust

E lá vem essa tristeza me tomar o peito, parece até minha dona. Mal sei eu de mim, como podes saber? Mais uma vez veio me atormentar.
Dor agonizante, quase fura. Faz sangrar minhas veias de defunto. 
                                                                    Morro pelo sopro como se fosse vela.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Atrás dos livros

Tu arrumou as coisas, me enfiou na mala e foi. Desejava conhecer o inesperado, sentir a brisa do mar e fugir da selva de concreto. Me deixou ali pois sou desajeitada demais. Rodopio feito inseto ao redor da lâmpada, posso quebrar algum outro coração.
Tu me esqueceu no amontoado de decepções que esconde atrás dos versos bem escritos e rimas sobre seu velho amor. Empoeirei.

                                                  Tu me soprou e guardou outra vez.

domingo, 23 de junho de 2013

De trapos limpos

Faço de mim berço pro poeta bêbado-vagabundo que decidiu morar na rua e fazer da lua seu abajur. Levava consigo indagações sobre o que foi e quem era (mas deixava suas escolhas decidirem o que seria), uma caneta que nunca falhava, um pequeno caderno e o peso do céu.
Vomitava versos de amor não correspondido e entregava flores aos transeuntes. Gostava de conversar com os pombos e bater as asas, fingia ser um deles quando se sentia só. 
De agasalho cinza surrado e sorriso grudado na boca, estampou a primeira página do jornal da cidadezinha. "O louco que mendiga carícias" dizia a manchete.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

E o resto é chorar

Preparei pro jantar toda a amargura que me afoga o peito. Sentei-me no jardim e devorei um prato cheio. Deixei o rádio ligado e ele insistia em cantar "eu amo você", como quem diz pro mundo não esquecer de sorrir. Dos olhos quase secos vieram lágrimas choradas num adeus sem tchau, sem abraço dado. 
Lembranças tuas eu guardei num cesto de solidão e mandei incinerar. Tua imagem não ganha forma, são traços turvos que a memória às vezes traz. Algum dia me descuido e deixo o vento varrer de mim as cinzas que ainda sobraram de nós.
Meu bem, amor requentado não vai curar o que você me fez.